Coração, 2018

carvão e acrílica sobre papel kraft
50cm x 300cm


carvão sobre papel kraft

“Pude conviver com uma plantação de bananeiras em 2018, em Baturité no Ceará. Na época, ainda não sabia o que era agrofloresta. Observei o bananal com olhos leigos, mas atentos. Me impressionei com aquela vida pulsante e com os movimentos aparentemente ocultos das plantas, que mais parecem entidades. Em dado instante, percebi que a flor do final do pendão do cacho da banana, que alguns chamam de coração, outros de umbigo, ele se mexe. Em diferentes horas do dia, estava de um jeito. Às vezes todo aberto, às vezes meio fechado, e depois voltava a abrir. Mais tarde, aprendi que as bananeiras também “caminham”. Quanto mais eu observava, mais parecia que o bananal se enchia de vida. Mas, em dado momento, passei a ter a impressão que elas cresciam sobre mim, e sussurravam. O clima alegre e tropical das inocentes bananeiras foi aos poucos tornando-se mais sinistro, como se a qualquer momento pudessem falar. Se algum ser da floresta, ou animal, falar com você, não responda. Ele pode te levar para o lado dele. De volta à cidade, fui pesquisar mais sobre agricultura. Queria plantar meu alimento. Tudo se aproveita na bananeira. E brincam dizendo que dá até fruto. Ela fertiliza o solo, retém água, dá palmito, biomassa, a flor se come e é medicinal, a fibra dá artesanato, além de várias receitas com as bananas. Assim, a bananeira é a grande “musa” dos sistemas agroflorestais. Aliás, tem musa até no nome. São do gênero Musa, da família Musacea.

A banana não é nativa do Brasil, nem das Américas. Vem do sudeste asiático. Chegou aqui trazida pelos Portugueses. Também não é árvore, nem palmeira. É um grande arbusto. Os agricultores dizem que elas caminham, pois das touceiras saem os filhotes. As mais velhas apontam os caminhos para onde as mais novas devem ir. E assim, elas seguem dando cria e “caminhando” com o bananal. Quem cultiva gosta de deixar 3 bananeiras na touceira, é a tríade familiar: a avó, a mãe e a filha. A bananeira só dá um cacho na vida. Depois que a avó dá o cacho, seu talo tomba, ou corta-se deixando um pedaço que vai nutrir as mais novas. Esse desenho é como aquele bananal me atravessou. Desde que o escritor Sidney Porter, em 1901, batizou de “república das bananas” os países colonizados, muito se apresentou a banana nas artes com este viés. De Portinari à Caetano, a banana é a alma explorada dos trópicos. Junto com toda essa história entranhada nos bananais, quero também acrescentar a dimensão espiritual e misteriosa deste ser tão nobre e generoso, ao qual devemos agradecer por dividir a mesma existência.”


Naiana Magalhães